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Arte Música Comportamento

UM OUTRO LADO DE KURT COBAIN –

Um artista tem a capacidade de deixar marcas profundas em quem nós somos, e por vezes, refletem a sociedade e o tempo em que vivem. Alguns são atemporais ou tão a frente do seu tempo que ninguém sabe ao certo onde encaixar toda aquela arte.

Quando escuto Smells Like Teen Spirit parece que a música foi lançada ontem, aquela batida forte, sabe? E como as pessoas reagem a ela quando toca na balada? Todo mundo sabe a letra e ninguém fica parado, talvez Kurt não tenha escrito ela pra tocar em lugares assim, mas a obra de um artista foge do seu alcance quando ela é exposta, e poucos se expuseram em sua própria arte como Kurt.

O Nirvana vendeu milhões de discos e tem grande influência na indústria musical, quatro dos discos do Nirvana foram lançados quando Kurt ainda estava vivo. Segundo Charles Cross, um dos maiores biógrafos da banda (e o mais fodaaaa, também é dele o Mais Pesado que o Céu), só o Nevermind vendeu entre vinte e trinta e cinco milhões de discos, com tais números, Nevermind seria o 25 álbum mais vendido de todos os tempos.  O Nirvana e o Nevermind, aparecem no alto de praticamente todas as “listas dos melhores” elaborada pelos críticos nos últimos vinte anos. Foi esse CD que tirou Michael Jackson da primeira posição das paradas da Billbord, uma banda punk tirou o Rei do Pop do topo. E dessa obra prima idealizada anos antes de ser lançado na cabeça de Kurt, saiu minha música preferida. “Polly”.

Quando tinha 17 anos escrevi um textinho sobre “Polly”, sétima música do álbum Nevermind.  E agora ao escrever esse texto sobre minha banda e música favorita fica a minha tentativa de fazer você, seja lá quem for, salvar Kurt quando ele for mencionado em uma roda de bar como apenas um drogado suicida. Kurt foi BEM MAIS que isso, uma pessoa incrível que influenciou milhares de pessoas no mundo da moda, em suas vidas pessoais, músicos iniciantes e todos aqueles que foram tocados pela sua empatia e pelo seu dom de tocar as pessoas através de melodias e palavras.  Kurt é importante, eu sei disso. Você também deve saber.

A gente sempre nutre muito carinho e amor pelos artistas com quem nos identificamos e esse tipo de relação é uma das mais puras para mim, me identifico muito com toda a arte produzida por Kurt, desde suas pinturas (pouco divulgadas), as músicas, as melodias, os poemas, foi deixado um legado imenso, mesmo ele tendo vivido tão pouco. É profunda demais a empatia que eu sinto por ele, mesmo tendo nascido no ano em que ele morreu, sinto Kurt diariamente, imagino como ele reagiria a esse mundo cão que vivemos, mas como ele ficaria feliz também pelos direitos conquistados pelos lgbts, pelas mulheres e pelos movimentos sociais. A verdade é que Kurt foi um dos primeiros músicos do grunge/punk rock a se posicionar sobre causas sociais pertinentes já naquela época.

Pouca gente sabe que o Nirvana se posicionava contra o machismo, contra homofóbicos e pró-feminismo, Kurt se dizia um grande defensor da causa feminista. Eles fizeram diversas apresentações beneficentes antiguerra antes de se tornarem famosos, e isso não mudou quando saíram do anonimato. Kurt deu diversas entrevistas falando sobre o assunto e coisas que achava importante. Era mais uma tentativa de Kurt de tirar o foco que pairava sobre sua vida pessoal quando falava sobre feminismo, fanatismo, racismo e intolerância, citou esses temas em todas as entrevistas que deu pelo resto de sua vida. Ele usou da sua fama para ajudar a dar voz aqueles grupos marginalizados que não a tinham. Prova disso foi que no fim de 1992, o Nirvana lançou Incesticide, coletânea que reunia os lados B do Nirvana. Ao usar o encarte para se comunicar com quem compraria o disco Kurt escreveu: “Se algum de vocês, por qualquer motivo, detesta os homossexuais, as pessoas de outra cor ou as mulheres, por favor, nos faça uma gentileza: deixe-nos em paz. Não apareça nos nossos shows e não compre os nossos discos.” Ele sabia que grande parte do seu público era de homens e o recado era para todos eles. Era uma tentativa de escolher quem compraria seu disco, quem seria seu público.

Um fato em especial tocou bastante Kurt ao saber que dois homens estupraram uma garota ouvindo “Polly”, Kurt disse que os dois eram um “desperdício de espermatozoides e óvulos” . “Polly” é escrita na perspectiva do estuprador, é claro pra mim, que foi escrita dessa forma porque Kurt era homem, falar na perspectiva da mulher seria ridículo, seria ridicularizar a situação, deslegitimar nossa luta diária para sermos donas do nosso próprio corpo em uma sociedade extremamente machista. Kurt escreveu outras duas músicas sobre estupro “Floyd the Barber” e “Rape Me”. Ele se explicou quando questionado o porquê de escrever tais músicas, era uma forma dele dizer “Você nunca irá me matar. Vou sobreviver a isso e um dia desses serei eu a estruprá-lo, sem que você nem mesmo perceba”.

O Nirvana participou de vários concertos beneficentes em prol de grupos antiestupro. A banda convidava grupos formados por garotas para abrir seus shows, era comum Kurt dar entrevistas com camisetas de bandas formadas por mulheres para divulgá-las. Ao lançar In Utero, Kurt esperava mudar parte da misoginia existente no rock: “Talvez o disco inspire as garotas a pegarem uma guitarra e formarem uma banda – pois esse é o único futuro do rock n’roll”. Ele dizia que podemos estar em todos os lugares e não como submissas. Podíamos sair e virar estrelas do rock, e ele esperava que isso acontecesse. Em seu livro “Kurt Cobain: A Construção de um Mito”, Charles Cross cita diversos estudos acadêmicos de gênero que surgiram a partir das frases e letras de Kurt. Por todas essas declarações que fez a favor das mulheres, Kurt muitas vezes era taxado de feminista, termo que não o incomodava e tão pouco  Courtney Love, vocalista da banda Hole e viúva de Kurt Cobain. “Ninguém jamais disse que muitos roqueiros são idiotas sexistas, que usaram o rock alternativo para manter o mesmo tipo de poder misógino que tinham na escola”, disse Courtney, segundo ela, Kurt era diferente dos outros. E acho que ela estava certa. 

Kurt pode não ter sido o primeiro nem o último astro a tocar em questões sociais, mas no início dos anos 90 os holofotes estavam todos em cima dele e do Nirvana, e eles usaram suas palavras para que fossem ouvidas e gerassem um efeito positivo. Mesmo depois da morte do seu frontman o Nirvana continua exaltando as mulheres, ao serem incluídos no Hall do Rock n’Roll of fame (2014), a banda convidou apenas mulheres para cantar as músicas de Kurt. O rock não é um movimento transgressor? Mas nem isso o livra de ser sexista e machista, colocar mulheres para cantar foi uma maneira sutil e direta de reafirmar as ideias de Kurt mesmo depois de morto. Ele sabia que vivia em uma sociedade machista, e não se sentia confortável com isso. Eu me orgulho muito da pessoa e do artista que Kurt foi. E amo “Polly” como se ela fosse uma pessoa, como uma irmã e sei que existem outras tantas “Polly’s” por aí, e que temos o dever e a empatia de protegê-las e amá-las.

Cintia Martins

Aprendiz de Jornalista com os dois pés na Antropologia. Apaixonada por cada pedacinho de cultura e de riqueza desse nosso país tão lindo. Pensei em fazer Química, mas percebi que o meu lugar é observando as pessoas, e eu observo, herança desse meu signo de terra. Sou terra a terra, pé no chão. Escrever me faz voar, então, escrevo!

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