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Textos

Sereia em SP

Sinto exatamente como se eu fosse de outro planeta, oceano. Hoje, cá estou, compartilhando o meu trajeto na cidade cinza. Sempre gostei do colorido, do céu e mar juntos em vários tons de azul. Mas algo em SP me fascinava. Não sei se era o fato de ser uma em uma infinidade de lugares diversos, pessoas e suas diversas falas e vivências. Sempre quis estar, viver, plantar e fazer raiz. Quase cinco anos se passaram de idas e vindas. Desistências e persistências. Sempre me disseram que essa decisão, não teria volta. Mas fui e voltei mesmo assim. Me acharam fraca por voltar, me acharam forte por tentar de novo. Sempre acharam tanto, mas nada sabiam. Nem eu sabia. Até hoje, não sei.

O que faz, uma sereia sem mar? Sem colo familiar? Eu fiz. Tive que criar pernas e caminhar no desconhecido, esbarrar desconhecidos, me conhecer por dentro. Me desenhar por fora. Houveram dias tão difíceis, tão sombrios. Choveu, houve tempestade, houve tanta solidão. O que nunca foi um problema, mas estar realmente só, comigo mesma, foi assustador e louco. Eu quis estar ali, também quis fugir em tantas noites escuras. Quis abraçar o mundo, mas também queria tanto ser abraçada.

Na minha terra, havia calor, havia abraço gratuito, havia tanto afeto. Eu era afeto. Sempre fui colo pra tanto coração, sempre tive tanto amor pra compartilhar. Tudo era leve, mesmo tendo tanta cicatriz. SP me ensinou a me abraçar. Ver e saber que basta eu, apenas eu para que tudo faça sentido. O afeto vem de dentro pra fora. SP costuma ser meio vazio, por mais que transborde pessoas com suas histórias e seus quadrados fechados. Tanto para se falar, nada para se ouvir. Tanto para se querer, pouco para se oferecer.

Mas ei, existem uns corações perdidos, como o meu. Existe apego por profundezas. Tantas pessoas profundas, tanto silêncio para ser desvendado. Sempre há beleza, né? No claro e no escuro. A gente só precisa enxergar. Dentro de si. Fora de si. E mesmo depois de todos os destroços, bagunça, caminhos traçados, eu ainda tenho trilhões de camadas para descascar, desabrochar. Talvez eu ainda não saiba dizer quem sou ou para quê vim ao mundo. Talvez eu nunca saiba. Sei bem ler os outros, mas nem tanto me ler. Se tu souber, me avisa.

Ingrid Brandão

Sereia. Cigana. 24, do Ceará, de SP e do mundo. Bagageira de emoções. Um desastre. Amante de musica boa, filme chororô e lugares desconhecidos. Amante do amor. Todo tipo de amor. Vamos nos amar.

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