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Textos

Todos nós saímos do útero de uma mulher

Todos nós saímos do útero de uma mulher. Passamos por processos de crescimento. Descobrimos nossos sentidos primitivos. Despertamos nossas batidas do coração. Criamos vínculo afetivo. Crescemos nossos olhos, bocas, órgãos e pelos. Trocamos fluidos nutritivos. Dividimos nossas dores. Encontramos naquele conjunto de órgãos ao redor de nossa pequenez fetal o mais grandioso sentido do amor. Amor esse acolhido por um único organismo. Criado por um único ser. Sentido por um único gênero. Tudo em um só corpo e espírito. Nele se fizeram todos os maiores e importantes homens da humanidade. Constituíram-se dentro de um órgão unicamente feminino todas as maiores dádivas e desprazeres humanos, de todas as formas, tamanhos, culturas, princípios e vivências. E foi nesse ventre. No ventre de mulheres, mães, avós, irmãs e amigas que se constituiu a dualidade da mais profunda subjetividade de toda espécie. As mais variadas formas, cores, sabores e dores. Nesse mesmo ventre que suportou por nove meses o bem e o mal dentro de si. O rico e o pobre. O feio e o bonito. O poderoso e o indigno. O doente e o denominado normal. Todos partindo de uma mesma fonte criadora: a mulher. Mulher essa que, mesmo sendo fonte de vida e amor, foi castrada de um ser que se diz opositor do gênero do criador, de possuir direito dos mesmos pelos quais pariu e findou. Pela ganância dos quais consigo carregou. Pela ignorância e violência de quem bebeu dessa fonte e se lambuzou. Impedidas até mesmo do direito de serem e escolherem o que querem de si, por quem não sabe nem o que é e desonrou. Capada por ideologias e alienação de quem diz que não briga como mulher. Condenada por ser simplesmente quem é. Pois é, mulher… Saiba que o mesmo homem que de ti sai, é o mesmo que em ti não mais reside. Então, insiste. Pois a vida só em ti e por ti: nasce e persiste.

Resultado de imagem para power women tumblrFeliz dia das mulheres!

Damilly Mourão

Olá, meu nome é Dami(lly), tenho 22 anos e estudo psicologia. Tenho como inspiração o contato com a natureza, com os animais e as pessoas que me cercam. Fotografia é minha maior paixão e busco através do cinema, da música e da literatura minha fonte de arte e criação.

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Textos Comportamento

Panela de pressão

Está fervendo:

Será que consigo? Será que passo? Será que vou? Mas é perigoso. E se me roubarem? Se me estuprarem? Se me matarem? E se eu não for? Será que vão falar? E se falarem? Será que vão me ignorar? E se me ignorarem? Eu vou ficar só? E minha roupa? Será que está muito curta? Ou muito apertada? Será que vão me assediar? E o vestibular? Tenho que passar. Tenho que estudar. Tenho que ler. Tenho que me esforçar. Custe o que custar. Então vou ficar. E aquele amor? Será que vai estar lá? Será que vai me notar? Ou nunca vai vingar? Sozinha não quero ficar. Vai o Lucas, o Tiago, o Mateus, o João. Só não vai ter a quem amar. E minha família? O que vai pensar? Será que ainda vão me aceitar? Vou me esforçar. Mas e se amanhã eu não acordar? Se não conseguir estudar? Não conseguir me levantar? Se me atrasar? Vão me matar. Mas se eu ficar? Vou chorar? Vou dormir? Ou estudar? Melhor estudar. E o amor? E os amigos? E minha família? Onde vão ficar? E o dinheiro? Será que vai dá? Mas e o cabelo? E a maquiagem? Não quero vacilar. Será que estou bonita? Será que estou bem vestida? Maria vai estar lá. Como deverá estar? E eu? E minhas espinhas? Será que estão bem escondidas? E meu cabelo? Será que está oleoso? Engordei 2 quilos. Será que vão notar? Falando nisso. Tenho que malhar. Fazer dieta. Correr. Andar. Me esforçar. E amanhã? Será que vou acordar? Não quero me atrasar. Odeio meu curso. Mas essa aula não posso faltar. Tenho satisfações a dar. E a tarde tenho que trabalhar. Com o meu chefe tenho que me explicar. Com minha mãe tenho que falar. Com meu pai me desculpar. E com Maria me socializar. Popular é o que eu desejo ficar. Só ela pode me ajudar. E AH! Acabei de lembrar… Selfies!!! Tenho que tirar. E editar. E publicar. Será que vão notar? Eu vou postar. E a festa? Será que ainda vai rolar? Minha roupa vai amassar? E ninguém vai chegar? Preciso me apressar. Vou ligar. Ligo? Vou ligar… Será que vão me atender? E se eles nem lembrarem mais que eu vou? *Discando* Ninguém atende? Vou desligar. Vou esperar. Para variar. Esperar… Esperar…Esperar… Odeio esperar. Meu celular vai descarregar. Vou ficar sem me comunicar. Já são 21:30. Vou chorar. E a festa? Como vai estar? Quero ir para comemorar. Ser feliz. Será? Ou vou só para me enturmar? Com quem nem comigo deseja estar? E o vestibular? E o tempo de estudar? E de trabalhar? Será que vale a pena me esforçar? Para não sair do lugar? E apenas deixar o $tatus falar? E o amor? Será que vai machucar? Vai doer? Vai sangrar se eu não me jogar? Ou sozinha sou incapaz de ficar? E a família? Vai falar? Ou vai me amar? E eu? Vou me amar? Me cuidar? Ou vou chorar? *Telefone tocando* Vou ficar…

Explodi.
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Damilly Mourão

Olá, meu nome é Dami(lly), tenho 22 anos e estudo psicologia. Tenho como inspiração o contato com a natureza, com os animais e as pessoas que me cercam. Fotografia é minha maior paixão e busco através do cinema, da música e da literatura minha fonte de arte e criação.

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Textos

Sobre não passar em universidade pública – e continuar viva

Era uma terça a tarde e eu estava sentada sozinha. O resultado tinha saído e foi um dos pontos mais baixos da minha vida. Eu chorei por quase duas horas seguidas, me desesperei. Minha mãe me confortou, me acalmou, mas ainda assim não era o suficiente. E eu nem sabia que queria tanto assim.

A maioria das pessoas tem esse desejo maluco de passar em uma federal. Estudando em escola pública a minha vida inteira,  essa sempre pareceu uma realidade muito distante; o meu desejo de passar em uma Federal vinha mais de não querer pagar pra ter um diploma do que de fato por vantagens. Mas naquele momento eu me dei conta que de alguma maneira, não passar colocava em dúvida toda a auto-confiança que eu tinha. Queria dizer que eu não era boa o suficiente e que eu tinha falhado num dos testes mais cruéis da nossa sociedade.

Até que eu me dei conta de que a minha tristeza tinha muito mais a ver com um status que eu não tinha adquirido do que com algo que eu realmente queria. Eu queria Relações Internacionais, mas pra mim ser ou não na UNB não fazia muita diferença. E quando eu aceitei isso, tudo ficou mais fácil. Eu ainda vou passar os próximos 20 anos pagando um financiamento, mas eu consigo enxergar todos os pontos positivos de estar em uma faculdade particular. Eu tenho professores tão bons quanto os de universidades públicas; as instalações são incríveis; eu posso fazer estágio e sei que terminarei a faculdade no tempo pré-determinado. Sem contar que, como um bom e sábio amigo me disse, reprovar nesse tipo de vestibular, pra pessoas de renda mais baixa, como eu, é um desapontamento esperado – ainda que muito doloroso.

É claro que isso não tira o prestígio de quem passa e nem é o meu objetivo. Eu ainda vibro e choro por pessoas que eu sei que tinham um desejo imenso de ir pra UnB, USP, UFRJ. E sim, uma parte minha ainda sente até certa inveja. Mas não era o meu objetivo, e tudo bem não ser assim. Eu não sou pior ou melhor do que ninguém por isso. Eu ainda posso chegar onde sempre quis chegar, só não vai ser pelo caminho aclamado e ovacionado. Não vou entrar pela porta principal, mas no fim não faz diferença se eu chegar lá, né?

Débora Luna

20 anos, meio internacionalista meio amante do mundo. Obcecada por pandas. Tenho um milhão de textos inacabados, e acho mesmo que posso mudar o mundo. Vem comigo?

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Textos

Tout Change

Nós sempre estaremos em transição. Algumas vão ser gigantes, com resultados que mudarão de forma definitiva a nossa vida. Outras são transições do que você era ontem pro que você é hoje. São pequenas, insignificantes e imperceptíveis, mas estão ali. E ainda assim, os momentos de transição podem ser angustiantes, dolorosos, confusos e parecem durar séculos.

Eu estou em um desses. É como se fosse uma ilha, em que eu e todas as pessoas que fazem parte da minha vida e considero importante estivéssemos la, e tudo estivesse bem, o sol brilhava e a sensação de conforto e de que eu estava no lugar certo deu o senso de segurança que tanto precisamos na vida. Até que eu percebi que os meus amigos mais próximos não estavam mais lá. Primeiro vem a raiva, a sensação de traição – porque nós seres humanos somos vaidosos ao ponto de achar que todas as decisões das pessoas que amamos nos envolvem. Depois sobrou a tristeza, e junto com a aceitação veio a melancolia. Em algum momento, apareceu a compreensão. E  não estão eles também em um milhão de transições? Dessa vez não me envolvia. Dessa vez, eles ganharam uma passagem pra fora da ilha e decidiram ir. Tudo bem. Aposto que se eu me esforçasse poderia comprar uma passagem também, mas no fundo eu sei que eu nem gosto tanto assim do destino pra qual eles foram, esse lugarzinho aqui tem a temperatura perfeita e é o primeiro que faz eu me sentir bem e completa. Tudo bem, né? Eu posso visitá-los de vez em quando. Talvez no meio de uma das nossas transições a gente se esbarre de novo, talvez em um bar em outra cidade. Ou talvez não. Talvez o que tínhamos em comum era essa ilha, nesse momento específico. Claro que, esse não é o cenário ideal, é um cenário com mágoa, especialmente em um mundo onde estamos acostumados a esperar tanto das pessoas, a achar que tudo é eterno e duradouro, a lidar com coisas positivas e minimizar as negativas. Eles deveriam ficar comigo nessa ilha até o fim, não é? Não. O mundo girou, e não foi culpa de ninguém. Ele só girou, e agora nós não estamos mais do  mesmo lado, eu estou aqui, nessa ilha e eles não estão mais, mas eu tenho opções também. Pode ser o pontapé pra sair desse lugar cômodo e achar um milhão de outros lugares, pode ser o indicio de que talvez aqui seja mesmo o meu lugar mas que muitas outras pessoas aparecerão pra visitar essa ilha, ou pode nem ter um significado gigante. Porque as vezes a vida só é. Sem um grande significado. Ela só acontece. Passa.

Débora Luna

20 anos, meio internacionalista meio amante do mundo. Obcecada por pandas. Tenho um milhão de textos inacabados, e acho mesmo que posso mudar o mundo. Vem comigo?