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Textos

Escrevo aqui

Escrevo aqui, dia primeiro de janeiro de 2018 para lembrar-me detalhadamente do meu interior atual. Hoje, me sinto viva. Real por inteiro. Tô inteira. Dois mil e dezessete foi louco, intenso, insano. Pensei que me conhecia o suficiente. Pensei que saberia lidar comigo mesma, no meio dos improvisos da vida. Mas não soube. Surtei, desabei, me desconheci. E tive que me reconhecer. De novo e de novo. Estava ali, frente a frente de uma outra Ingrid. Ainda intensa e profunda, mas antes segura, me encontrei insegura. Quem era eu, afinal? No meio de tudo aquilo, o que restou de mim, no meio do que vivi?
Mas passou. Respirei e aprendi a engolir seco e enxergar minha própria verdade.

Á partir daí, me enfrentei. Levantei e pude dedilhar meus próprios passos. Sozinha. Voltei pra faculdade. Fotografei almas reais. Me encontrei. Me descobri no meio de tantas camadas. Voltei pra casa. Minha terra. Meu sol e chão quentes. Amor cheio de fervor. Mas ei, eu não era a mesma. Já tinha criado raiz no solo de pedra. Arrumado a casinha, enfeitado domingos. Então houve vazio, falta, desencaixe. Houve amor, mas não me encaixei. Então voltei. Voltei para a casinha real. Lar. E daí, veio a gratidão. Gratidão por ter construído um ninho. Família, ternura. Sempre me enxerguei cigana, mas entendi que pude voar e, mesmo assim ser casulo.

Mas ei, ainda haviam algumas montanhas para escalar e uns escuridões interiores para enfrentar. Respirei mais uma vez e segui firme. Fui atrás do que era meu, com meu próprio esforço e bagagem. Consegui meu primeiro estágio. Tudo se encaixou. Houve cansaço físico, mas coração preenchido. Eu, ele, os filhos e o lar. Tudo se encaixou. Me tornei gente grande, talvez? Talvez.

Mas a vida é meio louca, né? A gente sempre acha que sabe o que vai acontecer. Ou, pelo menos, se molda pra isso. Mas não sabe. Eu não soube. E o universo conspirou e me parou. Parei. Fui derrubada, literalmente. A pessoa que dizia que nunca tinha quebrado ossos, foi quase despedaçada. O mundo continuou, mas o meu, pausou. Houveram mais desabamentos, houve dor, suspiros também. Tantos. Limitações. Infinitas. Mas aprendi, no meio de tudo. Ganhei um novo braço, mais uma porcentagem de paciência e sabedoria. Saber que eu não tenho o controle de tudo. Que o mundo é imenso e né, não existe só eu. Existe nós todos. Seis meses de recuperação. Recuperação. E cá estou, além das cicatrizes internas, agora cicatrizes reais existem. E fazem parte exatamente da pessoa que sou. Sou eu. Eu com minhas profundezas e insanidades. E essa mesma eu, eu nova e ainda desconhecida continua se encontrando todos os dias. Descobri também que eu posso dizer não. E que preciso colocar pra fora, quando preciso. Ninguém é Deus. Ninguém aguenta tanta carga. E eu, que sou tão pequena, sempre acabo querendo agarrar o mundo. Enxerguei que, definitivamente, não posso. E tá tudo bem. Dizer não. Dizer chega. Parar de me desculpar pela pessoa que eu sou. E amar o que naturalmente se faz real. Amar o que vivo diariamente e quem se faz presente. De coração e alma.

Alguns minutos desde dia primeiro lá estava eu, no meu lugar preferido no mundo, sentindo a água bater enquanto eu tentava enxergar as escuridão do mar. Imaginando o que trilhões de pessoas estavam pensando, pedindo, querendo. Planos, promessas, metas. Tudo que eu queria era agradecer por estar viva. Por ter aguentado o rojão, no meio de tudo isso. Eu vivi. Eu fui eu, até quando não sabia quem era. Eu deixei transbordar e deixei perder o controle. Continuo sem saber aonde a vida vai levar. Me permitindo desabar, quando for preciso. E aberta para aprender a andar, nadar, voar de novo. Levantar de novo, me conhecer de novo.

Ingrid Brandão

Sereia. Cigana. 24, do Ceará, de SP e do mundo. Bagageira de emoções. Um desastre. Amante de musica boa, filme chororô e lugares desconhecidos. Amante do amor. Todo tipo de amor. Vamos nos amar.

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Textos

A internet e a forma como nos desconectamos das pessoas

Você consegue se imaginar há uns dez anos atrás? Parece distante, mas vou te contar: nem é tanto. E um tempo atrás, não tínhamos tanta facilidade em estarmos conectados em todas as redes sociais, 24h por dia. Não alimentávamos nosso instagram com stories. Nem existia instagram. Acompanhávamos o básico pela internet. Vivíamos o intenso pessoalmente, fisicamente. Hoje, é tão fácil se atualizar de tudo e todos o tempo inteiro. Tão difícil abraçar, olhar no olho, encostar. Nos tornamos vitrines e vemos vitrines.

Posso ser um pouco hipócrita por fazer parte de tudo isso. Quem não faz? Minha avó faz! Mas a tecnologia e nossa forma de lidar com tudo isso, está fazendo com que relações físicas entrem em extinção. O toque, o ouvir e o falar, a expressão facial depois da fala. Mal se ouve voz, se não for do celular. Pro celular. O encontro na esquina, na praça, na lanchonete. A gente esqueceu como lidar e como se relacionar. Não nego, a internet me salvou e me abriu caminhos gigantescos. Me fez conhecer pessoas incríveis, de lugares incríveis. Te amo internet, não se chateie.

Mas existe um mundo aqui fora. Gigantesco. Com pessoas reais, sem provas grandes de poder ou de luxo. Existe um monte de vazio querendo ser preenchido. Um monte de silêncio interrompido pela internet, em vez de um beijo. E mesmo quando nos -desconectamos- e nos aventuramos nas pessoas, ainda estamos interligados ao mundo online. Onde vamos parar? Em cápsulas de vidro, talvez?

Mas ei, vou te contar: Nada melhor do que o sentir da pele. Do que o silêncio preenchido no olhar. Nada melhor do que o riso frouxo ao vivo. Ao vivo. Você aí, tá vivo? Tu vive? O que tu vive, hoje?

Ingrid Brandão

Sereia. Cigana. 24, do Ceará, de SP e do mundo. Bagageira de emoções. Um desastre. Amante de musica boa, filme chororô e lugares desconhecidos. Amante do amor. Todo tipo de amor. Vamos nos amar.

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Tá tudo bem

A vida inteira, nos dizem o que devemos fazer, como devemos pensar e agir. Desde pequenos, até mais velhos. Um ciclo sem fim. Sempre terão o que opinar. Aos dezessete, você já terá que saber o que irá querer ser pelo resto da vida. Aos vinte, vão te pressionar para estar num relacionamento. Aos vinte e cinco, quantos filhos terá? “Já pode estar tarde”, “ficará tarde”. Nunca estarão satisfeitos. Estar aqui, esteja onde você estiver, nunca é tarde para ser quem você é. Aos 45, pode ser a maior descoberta da sua vida. Talvez nós só queremos viver aos poucos, todos os dias, sentindo o vento bater na nuca, conhecendo novos lugares, pessoas e momentos. Mal sabem o quão errado é, querer tomar decisão pelos outros. E ei, tá tudo bem ir devagar. Não saber o caminho de volta, errar, tropeçar e principalmente, mudar de ideia.

Nós mudamos todos os dias. A forma de ver o mundo, como nos vemos por dentro. O que falta nas pessoas, é se permitir mais. Deixar que as coisas aconteçam, sem ter que programar a nossa vida inteira quando a gente nem sabe ainda o que quer dela. O que espera dela, o que esperar de nós mesmos tão antes de ter consciência e sem nunca ter vivido, afinal. O que você já viveu? E os arranhões? E as conquistas? O que você tem pra contar, além de entrarmos no papo de quantas faculdades e estágios você já fez? Quantas vezes você já jogou os problemas pro alto e andou sem rumo pela cidade? Quantas vezes você saiu da cidade sem rumo? Quantas vezes você se molhou na chuva e não se preocupou em abrir o guarda-chuva? Quantas vezes você fez amizade com alguém que nunca mais verá na vida, mas que nunca esquecerá as conversas reflexivas? Quantas vezes você fez o que realmente te deu vontade?

Sempre haverá alguém pra dizer o que é certo ou errado, se tá cedo ou tarde. Nunca serão você, nunca o verão por dentro ou saberão quem você é por inteiro. Você sabe. E a gente precisa se conhecer nos dias escuros e nos claros. Tá tudo bem não ter todas as formações do mundo. Tá tudo bem não ir pra todos os rolês dos finais de semana só porque os outros sempre estarão lá. Tá tudo bem não fazer nada e tá tudo bem fazer tudo. Ei, tá tudo bem ser o que o seu coração quer ser. Mas seja. Ninguém é você, além de você.

{infos} Ilustrações by: Elliana Esquive

Ingrid Brandão

Sereia. Cigana. 24, do Ceará, de SP e do mundo. Bagageira de emoções. Um desastre. Amante de musica boa, filme chororô e lugares desconhecidos. Amante do amor. Todo tipo de amor. Vamos nos amar.

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Sereia em SP

Sinto exatamente como se eu fosse de outro planeta, oceano. Hoje, cá estou, compartilhando o meu trajeto na cidade cinza. Sempre gostei do colorido, do céu e mar juntos em vários tons de azul. Mas algo em SP me fascinava. Não sei se era o fato de ser uma em uma infinidade de lugares diversos, pessoas e suas diversas falas e vivências. Sempre quis estar, viver, plantar e fazer raiz. Quase cinco anos se passaram de idas e vindas. Desistências e persistências. Sempre me disseram que essa decisão, não teria volta. Mas fui e voltei mesmo assim. Me acharam fraca por voltar, me acharam forte por tentar de novo. Sempre acharam tanto, mas nada sabiam. Nem eu sabia. Até hoje, não sei.

O que faz, uma sereia sem mar? Sem colo familiar? Eu fiz. Tive que criar pernas e caminhar no desconhecido, esbarrar desconhecidos, me conhecer por dentro. Me desenhar por fora. Houveram dias tão difíceis, tão sombrios. Choveu, houve tempestade, houve tanta solidão. O que nunca foi um problema, mas estar realmente só, comigo mesma, foi assustador e louco. Eu quis estar ali, também quis fugir em tantas noites escuras. Quis abraçar o mundo, mas também queria tanto ser abraçada.

Na minha terra, havia calor, havia abraço gratuito, havia tanto afeto. Eu era afeto. Sempre fui colo pra tanto coração, sempre tive tanto amor pra compartilhar. Tudo era leve, mesmo tendo tanta cicatriz. SP me ensinou a me abraçar. Ver e saber que basta eu, apenas eu para que tudo faça sentido. O afeto vem de dentro pra fora. SP costuma ser meio vazio, por mais que transborde pessoas com suas histórias e seus quadrados fechados. Tanto para se falar, nada para se ouvir. Tanto para se querer, pouco para se oferecer.

Mas ei, existem uns corações perdidos, como o meu. Existe apego por profundezas. Tantas pessoas profundas, tanto silêncio para ser desvendado. Sempre há beleza, né? No claro e no escuro. A gente só precisa enxergar. Dentro de si. Fora de si. E mesmo depois de todos os destroços, bagunça, caminhos traçados, eu ainda tenho trilhões de camadas para descascar, desabrochar. Talvez eu ainda não saiba dizer quem sou ou para quê vim ao mundo. Talvez eu nunca saiba. Sei bem ler os outros, mas nem tanto me ler. Se tu souber, me avisa.

Ingrid Brandão

Sereia. Cigana. 24, do Ceará, de SP e do mundo. Bagageira de emoções. Um desastre. Amante de musica boa, filme chororô e lugares desconhecidos. Amante do amor. Todo tipo de amor. Vamos nos amar.