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Textos Comportamento

Panela de pressão

Está fervendo:

Será que consigo? Será que passo? Será que vou? Mas é perigoso. E se me roubarem? Se me estuprarem? Se me matarem? E se eu não for? Será que vão falar? E se falarem? Será que vão me ignorar? E se me ignorarem? Eu vou ficar só? E minha roupa? Será que está muito curta? Ou muito apertada? Será que vão me assediar? E o vestibular? Tenho que passar. Tenho que estudar. Tenho que ler. Tenho que me esforçar. Custe o que custar. Então vou ficar. E aquele amor? Será que vai estar lá? Será que vai me notar? Ou nunca vai vingar? Sozinha não quero ficar. Vai o Lucas, o Tiago, o Mateus, o João. Só não vai ter a quem amar. E minha família? O que vai pensar? Será que ainda vão me aceitar? Vou me esforçar. Mas e se amanhã eu não acordar? Se não conseguir estudar? Não conseguir me levantar? Se me atrasar? Vão me matar. Mas se eu ficar? Vou chorar? Vou dormir? Ou estudar? Melhor estudar. E o amor? E os amigos? E minha família? Onde vão ficar? E o dinheiro? Será que vai dá? Mas e o cabelo? E a maquiagem? Não quero vacilar. Será que estou bonita? Será que estou bem vestida? Maria vai estar lá. Como deverá estar? E eu? E minhas espinhas? Será que estão bem escondidas? E meu cabelo? Será que está oleoso? Engordei 2 quilos. Será que vão notar? Falando nisso. Tenho que malhar. Fazer dieta. Correr. Andar. Me esforçar. E amanhã? Será que vou acordar? Não quero me atrasar. Odeio meu curso. Mas essa aula não posso faltar. Tenho satisfações a dar. E a tarde tenho que trabalhar. Com o meu chefe tenho que me explicar. Com minha mãe tenho que falar. Com meu pai me desculpar. E com Maria me socializar. Popular é o que eu desejo ficar. Só ela pode me ajudar. E AH! Acabei de lembrar… Selfies!!! Tenho que tirar. E editar. E publicar. Será que vão notar? Eu vou postar. E a festa? Será que ainda vai rolar? Minha roupa vai amassar? E ninguém vai chegar? Preciso me apressar. Vou ligar. Ligo? Vou ligar… Será que vão me atender? E se eles nem lembrarem mais que eu vou? *Discando* Ninguém atende? Vou desligar. Vou esperar. Para variar. Esperar… Esperar…Esperar… Odeio esperar. Meu celular vai descarregar. Vou ficar sem me comunicar. Já são 21:30. Vou chorar. E a festa? Como vai estar? Quero ir para comemorar. Ser feliz. Será? Ou vou só para me enturmar? Com quem nem comigo deseja estar? E o vestibular? E o tempo de estudar? E de trabalhar? Será que vale a pena me esforçar? Para não sair do lugar? E apenas deixar o $tatus falar? E o amor? Será que vai machucar? Vai doer? Vai sangrar se eu não me jogar? Ou sozinha sou incapaz de ficar? E a família? Vai falar? Ou vai me amar? E eu? Vou me amar? Me cuidar? Ou vou chorar? *Telefone tocando* Vou ficar…

Explodi.
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Damilly Mourão

Olá, meu nome é Dami(lly), tenho 22 anos e estudo psicologia. Tenho como inspiração o contato com a natureza, com os animais e as pessoas que me cercam. Fotografia é minha maior paixão e busco através do cinema, da música e da literatura minha fonte de arte e criação.

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Comportamento

O que 2016 te trouxe?

Tudo bem, sejamos um pouco realistas, esse ano teve uma dose intensa de acontecimentos desgostosos. Mudanças drásticas e tristes no país, muitos ídolos indo embora, muitos términos, aperto no bolso, aberto no coração. Mas e aí? Foi só isso? Percebo que, todo final de ano as pessoas torcem segundo por segundo para que acabe logo. No final, sempre é “acaba logo tal ano”, “metas para 2017”, “tudo vai mudar”. Como se nada de bom tivesse restado. Nunca param para olhar pra trás e notam as coisas boas, das pequenas até as grandiosas.

Dos reencontros inusitados, dos marcados também. Dos novos caminhos, novas pessoas, novos momentos. Das flores pelo caminho, do emprego novo, da libertação do emprego. Da nova banda que ouviu no caminho de volta pra casa. Existem coisas boas em todos os caminhos trilhados. É só enxergar. Restaram três dias. Setenta e duas horas. Vamo recapitular só as coisas boas? E ei, não esquece que coisas “ruins” também fazem parte. O tropeço, a chuva, o dia nublado, o arranhão, as lágrimas, o aperto. O aperto.

O arco-íris. O riso. O aconchego. O colo. A própria companhia. O dia clarear. O curativo. Tudo cura. O abraço apertado, no lugar do aperto. O dia seguinte nos faz ser uma pessoa melhor. Nos faz ver outros horizontes, sentir coisas nunca sentidas antes. Nos amar na dor. Nos amar no amor.

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Meu ano foi assim. Alguns dias difíceis. Alguns foram alívios. Talvez tenha sido o ano em que mais me enfrentei por inteira. Me olhei por dentro e vi do que sou capaz. Me mudei novamente. Montei minha casinha mais uma vez. Outro recomeço. Visitei minha terrinha. Me senti mais amada do que já havia sentido na vida. Voltei pra casa. Comecei a fazer terapia (e isso mudou completamente tudo). Pedi meu namorado em casamento. Saí do emprego pra poder viver meus dias, meus sonhos. Fotografei mais, me descobri mais. Conheci pessoas fantásticas. Reencontrei outras que sempre amarei. Mudei os móveis de lugar. Adotei mais uma gatinha. Aprendi finalmente a me cuidar e tomar mais água (depois de uns sufocos haha). Aprendi a cozinhar algo, além de arroz e filé de frango queimado hahaha. Tenho minhas próprias prantinhas. E esses dias farei um ano de blog. Tem noção? Pode ser pouco, mas isso pra mim é gigantesco. Faz parte de um dos meus maiores sonhos. Ter chegado até aqui é absurdo. Obrigada especialmente à você, que está lendo e fazendo isso mais especial ainda.

Agora jogo mais um exercício pra você: Que tal sentar, parar um pouco e escrever as coisas boas que te aconteceram? Não precisam ser um milhão, se for uma e for importante, já vale por todo o resto. Mas não deixa isso passar. Todas as pessoas que perguntei como foi o ano, responderam praticamente a mesma coisa. O quão tenso foi. Foi pesado. Foi. Mas não foi só isso. Foi muita coisa. Foram doze meses! O que tu aprendeu? O que tu ensinou? O que tu viveu, afinal?

{infos} Ilustração: Kathrin Honesta

Ingrid Brandão

Sereia. Cigana. 24, do Ceará, de SP e do mundo. Bagageira de emoções. Um desastre. Amante de musica boa, filme chororô e lugares desconhecidos. Amante do amor. Todo tipo de amor. Vamos nos amar.

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Arte Música Comportamento

UM OUTRO LADO DE KURT COBAIN –

Um artista tem a capacidade de deixar marcas profundas em quem nós somos, e por vezes, refletem a sociedade e o tempo em que vivem. Alguns são atemporais ou tão a frente do seu tempo que ninguém sabe ao certo onde encaixar toda aquela arte.

Quando escuto Smells Like Teen Spirit parece que a música foi lançada ontem, aquela batida forte, sabe? E como as pessoas reagem a ela quando toca na balada? Todo mundo sabe a letra e ninguém fica parado, talvez Kurt não tenha escrito ela pra tocar em lugares assim, mas a obra de um artista foge do seu alcance quando ela é exposta, e poucos se expuseram em sua própria arte como Kurt.

O Nirvana vendeu milhões de discos e tem grande influência na indústria musical, quatro dos discos do Nirvana foram lançados quando Kurt ainda estava vivo. Segundo Charles Cross, um dos maiores biógrafos da banda (e o mais fodaaaa, também é dele o Mais Pesado que o Céu), só o Nevermind vendeu entre vinte e trinta e cinco milhões de discos, com tais números, Nevermind seria o 25 álbum mais vendido de todos os tempos.  O Nirvana e o Nevermind, aparecem no alto de praticamente todas as “listas dos melhores” elaborada pelos críticos nos últimos vinte anos. Foi esse CD que tirou Michael Jackson da primeira posição das paradas da Billbord, uma banda punk tirou o Rei do Pop do topo. E dessa obra prima idealizada anos antes de ser lançado na cabeça de Kurt, saiu minha música preferida. “Polly”.

Quando tinha 17 anos escrevi um textinho sobre “Polly”, sétima música do álbum Nevermind.  E agora ao escrever esse texto sobre minha banda e música favorita fica a minha tentativa de fazer você, seja lá quem for, salvar Kurt quando ele for mencionado em uma roda de bar como apenas um drogado suicida. Kurt foi BEM MAIS que isso, uma pessoa incrível que influenciou milhares de pessoas no mundo da moda, em suas vidas pessoais, músicos iniciantes e todos aqueles que foram tocados pela sua empatia e pelo seu dom de tocar as pessoas através de melodias e palavras.  Kurt é importante, eu sei disso. Você também deve saber.

A gente sempre nutre muito carinho e amor pelos artistas com quem nos identificamos e esse tipo de relação é uma das mais puras para mim, me identifico muito com toda a arte produzida por Kurt, desde suas pinturas (pouco divulgadas), as músicas, as melodias, os poemas, foi deixado um legado imenso, mesmo ele tendo vivido tão pouco. É profunda demais a empatia que eu sinto por ele, mesmo tendo nascido no ano em que ele morreu, sinto Kurt diariamente, imagino como ele reagiria a esse mundo cão que vivemos, mas como ele ficaria feliz também pelos direitos conquistados pelos lgbts, pelas mulheres e pelos movimentos sociais. A verdade é que Kurt foi um dos primeiros músicos do grunge/punk rock a se posicionar sobre causas sociais pertinentes já naquela época.

Pouca gente sabe que o Nirvana se posicionava contra o machismo, contra homofóbicos e pró-feminismo, Kurt se dizia um grande defensor da causa feminista. Eles fizeram diversas apresentações beneficentes antiguerra antes de se tornarem famosos, e isso não mudou quando saíram do anonimato. Kurt deu diversas entrevistas falando sobre o assunto e coisas que achava importante. Era mais uma tentativa de Kurt de tirar o foco que pairava sobre sua vida pessoal quando falava sobre feminismo, fanatismo, racismo e intolerância, citou esses temas em todas as entrevistas que deu pelo resto de sua vida. Ele usou da sua fama para ajudar a dar voz aqueles grupos marginalizados que não a tinham. Prova disso foi que no fim de 1992, o Nirvana lançou Incesticide, coletânea que reunia os lados B do Nirvana. Ao usar o encarte para se comunicar com quem compraria o disco Kurt escreveu: “Se algum de vocês, por qualquer motivo, detesta os homossexuais, as pessoas de outra cor ou as mulheres, por favor, nos faça uma gentileza: deixe-nos em paz. Não apareça nos nossos shows e não compre os nossos discos.” Ele sabia que grande parte do seu público era de homens e o recado era para todos eles. Era uma tentativa de escolher quem compraria seu disco, quem seria seu público.

Um fato em especial tocou bastante Kurt ao saber que dois homens estupraram uma garota ouvindo “Polly”, Kurt disse que os dois eram um “desperdício de espermatozoides e óvulos” . “Polly” é escrita na perspectiva do estuprador, é claro pra mim, que foi escrita dessa forma porque Kurt era homem, falar na perspectiva da mulher seria ridículo, seria ridicularizar a situação, deslegitimar nossa luta diária para sermos donas do nosso próprio corpo em uma sociedade extremamente machista. Kurt escreveu outras duas músicas sobre estupro “Floyd the Barber” e “Rape Me”. Ele se explicou quando questionado o porquê de escrever tais músicas, era uma forma dele dizer “Você nunca irá me matar. Vou sobreviver a isso e um dia desses serei eu a estruprá-lo, sem que você nem mesmo perceba”.

O Nirvana participou de vários concertos beneficentes em prol de grupos antiestupro. A banda convidava grupos formados por garotas para abrir seus shows, era comum Kurt dar entrevistas com camisetas de bandas formadas por mulheres para divulgá-las. Ao lançar In Utero, Kurt esperava mudar parte da misoginia existente no rock: “Talvez o disco inspire as garotas a pegarem uma guitarra e formarem uma banda – pois esse é o único futuro do rock n’roll”. Ele dizia que podemos estar em todos os lugares e não como submissas. Podíamos sair e virar estrelas do rock, e ele esperava que isso acontecesse. Em seu livro “Kurt Cobain: A Construção de um Mito”, Charles Cross cita diversos estudos acadêmicos de gênero que surgiram a partir das frases e letras de Kurt. Por todas essas declarações que fez a favor das mulheres, Kurt muitas vezes era taxado de feminista, termo que não o incomodava e tão pouco  Courtney Love, vocalista da banda Hole e viúva de Kurt Cobain. “Ninguém jamais disse que muitos roqueiros são idiotas sexistas, que usaram o rock alternativo para manter o mesmo tipo de poder misógino que tinham na escola”, disse Courtney, segundo ela, Kurt era diferente dos outros. E acho que ela estava certa. 

Kurt pode não ter sido o primeiro nem o último astro a tocar em questões sociais, mas no início dos anos 90 os holofotes estavam todos em cima dele e do Nirvana, e eles usaram suas palavras para que fossem ouvidas e gerassem um efeito positivo. Mesmo depois da morte do seu frontman o Nirvana continua exaltando as mulheres, ao serem incluídos no Hall do Rock n’Roll of fame (2014), a banda convidou apenas mulheres para cantar as músicas de Kurt. O rock não é um movimento transgressor? Mas nem isso o livra de ser sexista e machista, colocar mulheres para cantar foi uma maneira sutil e direta de reafirmar as ideias de Kurt mesmo depois de morto. Ele sabia que vivia em uma sociedade machista, e não se sentia confortável com isso. Eu me orgulho muito da pessoa e do artista que Kurt foi. E amo “Polly” como se ela fosse uma pessoa, como uma irmã e sei que existem outras tantas “Polly’s” por aí, e que temos o dever e a empatia de protegê-las e amá-las.

Cintia Martins

Aprendiz de Jornalista com os dois pés na Antropologia. Apaixonada por cada pedacinho de cultura e de riqueza desse nosso país tão lindo. Pensei em fazer Química, mas percebi que o meu lugar é observando as pessoas, e eu observo, herança desse meu signo de terra. Sou terra a terra, pé no chão. Escrever me faz voar, então, escrevo!