Torquato-Neto-2
Arte Música

Cajuína Nordestina

Todos nós conhecemos Caetano Veloso, o baiano, o tropicalista, o irmão de Bethânia, o filho de Dona Canô, o Cae. O que a gente, às vezes, desconhece é a raiz de suas letras, o que tem por trás das melodias. Esse post vem pra explicar o porquê de Caetano ter escrito “Cajuína”.

Em 1979, Caetano lançou o disco “Cinema Transcendental”. “Elegia”, “Vampiro” e “Cajuína” são as minhas músicas favoritas desse disco. Quem me apresentou “Cajuína” foi uma amiga, como quem diz: “toma aqui esse presente que fiz pensando em ti”. Foi essa mesma amiga que me apresentou “Branquinha”, também de Caetano, que daria outro texto como esse. Me derreto toda quando escuto essa música, tomada pelas lembranças e pela magistral maestria de Caetano em transformar tanta dor em poesia, arte e música.

“Cajuína” guarda nas suas entrelinhas a história de Torquato Neto, o Anjo Torto da Tropicália. Um poeta sensível e inconformado, foi também letrista, como jornalista escreveu nos jornais Correio da Manhã, Presença, Jornal da Tarde, Veja e no jornal revolucionário chamado Sol.  Nordestino, nascido em Teresina, no ano de 1944. Contar a história de Torquato é contar a história da Tropicália, uma vez que, ele foi um dos principais letristas do movimento.

“Cajuína” é cheia de significados e signos. Torquato Neto cometeu suicídio em 10 de novembro 1972, abrindo o gás e trancando as janelas. Havia completado 28 anos no dia anterior. Deixou para trás uma esposa e um filho pequeno. Ironicamente o último poema escrito por ele se chama “Fico”.

Caetano ao passar por Teresina para um show, a primeira vez que retornava à cidade onde havia nascido Torquato Neto, seu grande amigo. Procurou Tio Heli, pai de Torquato. Já se conheciam do tempo em que Tio Heli ia a Salvador ver Torquato, que estudava na mesma escola de Caetano. Levou Caetano pra casa, serviu-lhe uma cajuína, e procurou consolá-lo, pois Caetano chorava muito, convulsivamente. Em determinado instante, Tio Heli saiu da sala e foi ao jardim, onde colheu uma rosa-menina, que deu a Caetano. Ali mesmo os versos de Cajuína começaram a surgir, entre antigas fotos do menino Torquato, penduradas pelas paredes. A sutileza da vida tá nas pequenas coisas, não é? Até nos quadros e fotos pendurados nas paredes de nossas casas. 

Cajuína – Caetano Veloso

Existirmos: a que será que se destina?

Pois quando tu me deste a rosa pequenina

Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina

Do menino infeliz não se nos ilumina

Tampouco turva-se a lágrima nordestina

Apenas a matéria vida era tão fina

E éramos olharmo-nos intacta retina

A cajuína cristalina em Teresina

No fim de 2016, pouco antes do Natal, recebi atônica a notícia de que uma amiga de infância havia cometido suicídio. Bem pouco antes do Natal, essa notícia devastou meus dias, apesar do pouco contato e de não vê-la há um bom tempo. É confirmado por pesquisas e teorias que no fim do ano os desejos suicidas aumentam, mas ninguém espera que isso realmente aconteça. Que um ente querido decida partir, que resolva deixar de existir para se livrar de uma dor maior. 

Essa música me veio à cabeça alguns dias depois e desde então escuto dia sim, outro não. Sempre pensando: Existimos, e qual é nosso destino? Em um contexto bem diferente, a vontade de continuar por aqui por um bom tempo só aumentou. Mas é difícil não se questionar, não remexer antigos demônios internos, não ficar triste e desolado com a efemeridade da vida, sobretudo quando envolve alguém tão jovem. Pequenos somos diante de tanto sofrimento, mas também diante de tanto amor que somos capazes de receber e amar. Não nos deixemos esquecer disso: Dar e receber amor, todos os dias de nossas vidas, nos bons dias e mais ainda nos dias ruins. 2016 deixou marcar profundas em mim, marcou-me como nenhum outro ano. E foi-se. 

Cintia Martins

Aprendiz de Jornalista com os dois pés na Antropologia. Apaixonada por cada pedacinho de cultura e de riqueza desse nosso país tão lindo. Pensei em fazer Química, mas percebi que o meu lugar é observando as pessoas, e eu observo, herança desse meu signo de terra. Sou terra a terra, pé no chão. Escrever me faz voar, então, escrevo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *