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Textos

Sobre não passar em universidade pública – e continuar viva

Era uma terça a tarde e eu estava sentada sozinha. O resultado tinha saído e foi um dos pontos mais baixos da minha vida. Eu chorei por quase duas horas seguidas, me desesperei. Minha mãe me confortou, me acalmou, mas ainda assim não era o suficiente. E eu nem sabia que queria tanto assim.

A maioria das pessoas tem esse desejo maluco de passar em uma federal. Estudando em escola pública a minha vida inteira,  essa sempre pareceu uma realidade muito distante; o meu desejo de passar em uma Federal vinha mais de não querer pagar pra ter um diploma do que de fato por vantagens. Mas naquele momento eu me dei conta que de alguma maneira, não passar colocava em dúvida toda a auto-confiança que eu tinha. Queria dizer que eu não era boa o suficiente e que eu tinha falhado num dos testes mais cruéis da nossa sociedade.

Até que eu me dei conta de que a minha tristeza tinha muito mais a ver com um status que eu não tinha adquirido do que com algo que eu realmente queria. Eu queria Relações Internacionais, mas pra mim ser ou não na UNB não fazia muita diferença. E quando eu aceitei isso, tudo ficou mais fácil. Eu ainda vou passar os próximos 20 anos pagando um financiamento, mas eu consigo enxergar todos os pontos positivos de estar em uma faculdade particular. Eu tenho professores tão bons quanto os de universidades públicas; as instalações são incríveis; eu posso fazer estágio e sei que terminarei a faculdade no tempo pré-determinado. Sem contar que, como um bom e sábio amigo me disse, reprovar nesse tipo de vestibular, pra pessoas de renda mais baixa, como eu, é um desapontamento esperado – ainda que muito doloroso.

É claro que isso não tira o prestígio de quem passa e nem é o meu objetivo. Eu ainda vibro e choro por pessoas que eu sei que tinham um desejo imenso de ir pra UnB, USP, UFRJ. E sim, uma parte minha ainda sente até certa inveja. Mas não era o meu objetivo, e tudo bem não ser assim. Eu não sou pior ou melhor do que ninguém por isso. Eu ainda posso chegar onde sempre quis chegar, só não vai ser pelo caminho aclamado e ovacionado. Não vou entrar pela porta principal, mas no fim não faz diferença se eu chegar lá, né?

Débora Luna

20 anos, meio internacionalista meio amante do mundo. Obcecada por pandas. Tenho um milhão de textos inacabados, e acho mesmo que posso mudar o mundo. Vem comigo?

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Textos

Tout Change

Nós sempre estaremos em transição. Algumas vão ser gigantes, com resultados que mudarão de forma definitiva a nossa vida. Outras são transições do que você era ontem pro que você é hoje. São pequenas, insignificantes e imperceptíveis, mas estão ali. E ainda assim, os momentos de transição podem ser angustiantes, dolorosos, confusos e parecem durar séculos.

Eu estou em um desses. É como se fosse uma ilha, em que eu e todas as pessoas que fazem parte da minha vida e considero importante estivéssemos la, e tudo estivesse bem, o sol brilhava e a sensação de conforto e de que eu estava no lugar certo deu o senso de segurança que tanto precisamos na vida. Até que eu percebi que os meus amigos mais próximos não estavam mais lá. Primeiro vem a raiva, a sensação de traição – porque nós seres humanos somos vaidosos ao ponto de achar que todas as decisões das pessoas que amamos nos envolvem. Depois sobrou a tristeza, e junto com a aceitação veio a melancolia. Em algum momento, apareceu a compreensão. E  não estão eles também em um milhão de transições? Dessa vez não me envolvia. Dessa vez, eles ganharam uma passagem pra fora da ilha e decidiram ir. Tudo bem. Aposto que se eu me esforçasse poderia comprar uma passagem também, mas no fundo eu sei que eu nem gosto tanto assim do destino pra qual eles foram, esse lugarzinho aqui tem a temperatura perfeita e é o primeiro que faz eu me sentir bem e completa. Tudo bem, né? Eu posso visitá-los de vez em quando. Talvez no meio de uma das nossas transições a gente se esbarre de novo, talvez em um bar em outra cidade. Ou talvez não. Talvez o que tínhamos em comum era essa ilha, nesse momento específico. Claro que, esse não é o cenário ideal, é um cenário com mágoa, especialmente em um mundo onde estamos acostumados a esperar tanto das pessoas, a achar que tudo é eterno e duradouro, a lidar com coisas positivas e minimizar as negativas. Eles deveriam ficar comigo nessa ilha até o fim, não é? Não. O mundo girou, e não foi culpa de ninguém. Ele só girou, e agora nós não estamos mais do  mesmo lado, eu estou aqui, nessa ilha e eles não estão mais, mas eu tenho opções também. Pode ser o pontapé pra sair desse lugar cômodo e achar um milhão de outros lugares, pode ser o indicio de que talvez aqui seja mesmo o meu lugar mas que muitas outras pessoas aparecerão pra visitar essa ilha, ou pode nem ter um significado gigante. Porque as vezes a vida só é. Sem um grande significado. Ela só acontece. Passa.

Débora Luna

20 anos, meio internacionalista meio amante do mundo. Obcecada por pandas. Tenho um milhão de textos inacabados, e acho mesmo que posso mudar o mundo. Vem comigo?

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Viagem

Guia da Mochileira Solitária

Nas (ainda poucas) viagens que fiz na vida, em especial no exterior, eu passei por algumas situações que acabaram estragando alguns momentos específicos – mas, como qualquer coisa negativa nessa brincadeira chamada vida, me fizeram aprender. As milhares de pesquisas feitas antes de cada viagem também me ajudaram a conhecer sites que teriam me rendido um dinheirinho a mais, caso eu soubesse da existência deles. Por isso decidi fazer esse mini-guia, com dicas que aprendi pelo maravilhoso mundo da internet (e com a vida real, que também é uma ótima professora).

1- Pesquise muito. Se você está planejando viajar, você provavelmente já está fazendo isso, então vai parecer uma dica meio idiota. Mas se você está indo pra um lugar que você não conhece (e especialmente pra lugares em que você não fala a língua local) é muito importante você ter o máximo de informações possíveis. Leia blogs, eles tem opiniões sinceras e de “gente de verdade” que estavam lá e não estão sendo pagas por uma empresa (na maioria das vezes) pra elogiar lugares e serviços. Elas vão contar as dificuldades que tiveram, dicas específicas pra aqueles lugares e provavelmente vão te dizer como chegar do aeroporto até o centro da cidade da maneira mais barata (é a parte que mais me interessa!).

2- Onde pesquisar voos? Você já decidiu onde vai e já pesquisou horrores – pesquisou tanto que já é quase como se você fosse um habitante do lugar. É hora de comprar voos. Uma das dicas mais importantes que já recebi foi sobre a antecedência da compra do voo. Até 6 meses é o ideal (diferente do que costumamos pensar, que quanto mais adiantado melhor). Comprando antes disso, você está reservando um voo que sequer existe e que pode facilmente ser cancelado. Com 6 meses você ainda consegue passagens baratas, em um voo já confirmado e ainda pode dividir o preço com tempo pra pagar antes de viajar. Costumo usar o google flights nessas pesquisas, já que ele faz a pesquisa de preço com taxas incluídas. Se você ainda não decidiu pra onde vai, o skyscanner é uma boa opção. Ele tem a ferramenta “Flexível”, em que você coloca a cidade de onde quer sair, as datas de ida e volta (que também podem ser flexíveis) e aparecem todos os voos mais baratos naquele período – no Brasil e no mundo. 

3- Guarde suas pesquisas – E IMPRIMA! Essa não é a dica mais pró meio ambiente, mas isso é muito importante. Todas as suas pesquisas devem ser guardadas (mapas de metrô, como chegar nos lugares que você quer visitar, papéis de imigração) mas também é importante que você imprima os papéis mais importantes porque o seu celular e o seu notebook não são tão confiáveis assim (e isso seria um problemão em uma entrevista de imigração, por exemplo). Eu indico imprimir o guia pra sair do aeroporto e chegar até o seu hotel, mapa de metrô, passagens aéreas e reservas de hotéis/albergues.

4- Save money, fique em um albergue! Essa vai ser uma dica desnecessária pra quem tá viajando com pouco dinheiro porque é a mais inicial de todas, mas se hospedar em albergue é uma experiência por si só. Você tem a oportunidade de conhecer pessoas incríveis, com histórias que você nem acreditaria, além de conseguir dicas de locais e até um desconto naquela atração que você queria muito ver. Tudo bem que nem todo mundo curte a ideia de compartilhar um quarto, mas a maioria dos albergues tem quarto individual, por exemplo. A atmosfera de albergues vão tornar sua viagem muito diferente. Onde escolher? Eu sempre uso o booking. Uma das primeiras coisas que faço é dar uma olhada geral nos mais baratos (claro). Depois disso, olho a pontuação (eu costumo escolher acima de 7, mas leio os comentários pra saber o porque de avaliações ruins já que nem sempre são coisas que me incomodam). Também dou preferência pros que incluem café da manhã. Eu já fiquei em albergues muito ruins e outros tão bons que pareciam hotéis, mas mesmo nos que não eram tão bons assim a experiência foi ótima. É também a melhor opção pra quem quer viajar sozinho. 

5- Cuidado com horários de voos! Nunca escolha um voo que saia antes das 9 em uma cidade que você não conhece, nem voos que cheguem depois das 21 hrs em lugares que você não conhece. A razão é simples e já está escrita: você não conhece a cidade! Entre esses horários vão ter pessoas pra te ajudar a chegar onde você precisa chegar, mas depois das 21hrs boa parte dos aeroportos ficam consideravelmente mais vazios e antes disso você pode perder o metrô, ou errar o embarque ou simplesmente não acordar na hora certa.  

6- Workaway. A dica é só essa mesmo. Essa ferramenta foi uma das coisas mais incríveis já inventadas para quem quer viajar. O site reúne pessoas do mundo todo – aquelas que estão dispostas a te oferecer casa e comida, e aquelas procurando. Como você paga isso? Com tempo! A ideia é você ajudar o seu host com alguma atividade (alimentando animais, ajudando a pintar um portão, ensinando inglês pros filhos deles, cuidando de um albergue) e em retorno ele te deixa ficar lá. Em geral, você trabalha 5 horas por dia 5 vezes na semana, e você que decide por quanto tempo ficar lá. O site cobra uma taxa de 39 dólares (acesso por um ano) pra se inscrever nas vagas, mas você consegue ver todas as vagas disponíveis sem precisar se inscrever. Alguns hosts aceitam mais de uma pessoa ao mesmo tempo, outros estão inscritos no programa para voluntários “de última hora”. Isso pode tornar a sua experiência mais barata e mais completa. 

7- Não queira conhecer o mundo inteiro em uma viagem só. Em especial quando compramos passagens pra Europa, achamos que é nosso dever conhecer o máximo de lugares no mínimo de tempo. Essa é uma prerrogativa interessante e que funciona com algumas pessoas. Comigo não funcionou. Se você tem 7 dias na Europa, é melhor conhecer dois países com calma do que tentar conhecer 3 ou 4 nos chamados bate-volta. Quando fui pra Amsterdã em 2015, decidi conhecer Berlim, ir de novo pra Londres e Amsterdã. Fiquei um dia em Berlim, dois em Londres e um em Amsterdã e não foi a melhor ideia que já tive. Quando cheguei em Amsterdã estava tão cansada que não tinha mais tanto ânimo pra apreciar as coisas legais da cidade (e na verdade não tinha ânimo algum depois de 5 da tarde). O ponto é: viagens são sim cansativas, você vai andar bastante, isso sem contar os desgastes envolvendo aeroportos. Se puder separar metade de um dia em cada chegada em uma cidade, já vai adiantar bastante coisa. 

8- Se possível evite aviões. Em distâncias gigantes isso é obviamente impossível. Na Europa, nem tanto. O tempo que você perde em aeroportos seria muito bem utilizado. A malha terrestre da Europa é muito bem construída e conectada e tem trens saindo de quase todos os lugares pra quase todos os lugares. Em algumas situações não vai valer a pena (principalmente em viagens curtas), mas se possível, vá de trem ou ônibus. Eles costumam ser mais baratos e tem vistas mais bonitas. 

9- Viajar sozinha não é a coisa mais perigosa que pode te acontecer. Eu me lembro de quando viajei sozinha as pessoas ficarem aterrorizadas. O mundo não é seguro, isso todos nós sabemos. E eu particularmente sempre morei em lugares inseguros, então sempre estive acostumada com a rotina de ter muito cuidado e atenção. Pra mim, em viagens em que estou sozinha meu modus operandi é o de sempre. Você precisa ter cuidado, como teria em qualquer lugar, mas não precisa ficar completamente neurótica de maneira que vá estragar sua experiência inteira. Fique em um quarto só de mulheres em albergues, por exemplo. Só isso já vai te deixar mais relaxada – e você provavelmente vai conhecer outra pessoa que se sente assim.

10- Aproveite!! Você trabalhou, se esforçou, passou um bom tempo planejando tudo. Aproveite. Não fique pensando em problemas, ou em como a viagem já está acabando. Só viva cada momento. Toda viagem é uma oportunidade de se conhecer, de conhecer outras pessoas e de crescer enquanto pessoa (sim, até aquela viagem anual pra cidadezinha de interior pra casa da sua família). Aprendendo isso, você consegue aproveitar todas as coisas maravilhosas que uma viagem tem à oferecer! 

Débora Luna

20 anos, meio internacionalista meio amante do mundo. Obcecada por pandas. Tenho um milhão de textos inacabados, e acho mesmo que posso mudar o mundo. Vem comigo?

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Viagem Textos

Vamos pra Piri?

Se você mora em Brasília ou nos arredores, é muito provável que você tenha passado boa parte das suas férias e feriados em Pirenópolis, ou como o brasiliense carinhosamente apelidou Piri.

Eu nunca tive muita curiosidade – pagar caro não era o meu forte. Mas o que a gente não faz por amigos? Pela primeira vez, em 20 anos, decidi ir pra cidadezinha que fica à 150 km de Brasília. Dei uma chance e ela me encantou, estamos apaixonadas.

Pirenópolis não é uma cidade barata. Pra entrar em todas as cachoeiras você precisa pagar (já que, em tese, elas ficam dentro de propriedades privadas), a comida não é barata, a hospedagem não é barata. No fim, vale a pena. A cidade em si é só mais uma dessas cidadezinhas históricas que temos de milhões Brasil a fora, mas depois de conhecer as cachoeiras fica fácil entender porque ela virou a favorita entre os brasilienses.

Infelizmente só fiquei por um fim de semana, não conheci muito. Chegamos no sábado no horário do almoço e tomamos a decisão (errada) de ir andando até o que é considerada a cachoeira mais próxima da cidade – Cachoeira da Usina Velha. Não façam isso em casa, crianças. Imaginem: alguns km a pé, em uma BR, no sol de meio dia do cerrado em pleno inverno – onde praticamente não existe água no ar. Não foi a ideia mais esperta. Algumas horas depois, estávamos na linda (e gelada) cachoeira.

No outro dia fomos para as 7 cachoeiras na Fazenda do Bonsucesso. A sensação é que estávamos num set de filmagem. As trilhas são relativamente fáceis, e as últimas três cachoeiras são as mais bonitas e as mais profundas.

Com água verde e cristalina, os poços são gelados – o que contrasta com o tempo quente.

Pra quem gosta de renovar as energias perto da natureza, esse é um dos lugares mais lindos pra se conectar com o mundo novamente.

Débora Luna

20 anos, meio internacionalista meio amante do mundo. Obcecada por pandas. Tenho um milhão de textos inacabados, e acho mesmo que posso mudar o mundo. Vem comigo?